Final de Copa do Mundo. Brasil x Argentina, pela primeira vez na história.
Estádio lotado. Arquibancadas fervendo de tensão.
O Brasil vence por um a zero ao final do segundo tempo.
O relógio está quase parando. O tempo escorre a passo de tartaruga.
O Brasil vence. Mas quem domina o jogo é o rival.
Vem para cima dos canarinhos como um rolo compressor. Bolas na trave. O goleiro tupiniquim faz um milagre atrás do outro.
Tensão. Desde o início do segundo tempo, o Brasil leva um sufoco histórico, encurralado em seu próprio campo.
Quarenta e um minutos da etapa final, e o zagueiro brasileiro derruba o principal atacante platino dentro da sua área.
O juiz, convicto, manda seguir o jogo. Não apita a penalidade.
O zagueiro, no entanto, chama o árbitro e confessa que realmente derrubou o adversário.
"Foi pênalti, sim. Pode marcar", garante ele. E a torcida amarelinha presente no estádio aplaude o fair play.
Bola na marca da cal. O dez argentino bate com categoria, sem chances para o arqueiro.
Um a um.
Recomeça o jogo, com os brasileiros desorientados.
A vitória histórica parece haver escapado.
Na prorrogação, os brasileiros serão engolidos pelos argentinos, que vêm jogando muito melhor. Até o líder do time está assustado.
Quarenta e seis minutos do segundo tempo. Começam os chutões em direção à área adversária. Sem nenhum objetivo, sem nenhuma tática.
Quarenta e sete.
Os rivais tocam a bola, tranquilos, aguardando a prorrogação.
Quarenta e oito minutos. Última volta do ponteiro, como diziam os antigos narradores do rádio.
O Brasil não tem mais pernas, comentam todos. Não tem mais jeito. Chuveirinho desesperado na área argentina.
Último ataque brasileiro. Na verdade, um contra-ataque. De-ses-pe-ra-do. Bola na área da Argentina.
Ela sobe, sobe muito alto, faz uma curva caprichosa e vai caindo, traiçoeira, fora do alcance do goleiro.
O centroavante auriverde invade a área, ganha do zagueiro na corrida, reúne todas as suas forças e se joga de encontro à bola.
Quase em cima da linha do gol, a bola bate em seu braço e entra.
Gol do Brasil. Os argentinos reclamam, inconformados. Foi gol de mão!
Mas o árbitro, soberano nas decisões, aponta o centro do campo.
Dois a um.
Não há tempo para mais nada.
O juiz apita o final da partida.
Brasil campeão do mundo. Em cima da Argentina.
Porém, há algo errado.
Nas arquibancadas, ninguém comemora.
O argentinos, porque perderam a Copa.
Os brasileiros, porque venceram com um gol de mão.
Em todo o país, as emissoras se calam. Jornalistas em silêncio, constrangidos pela falta de fair play do atacante brasileiro. Locutores, apresentadores, comentaristas, narradores, analistas, ex-jogadores, todos estão envergonhados. Ninguém sabe o que dizer.
"Onde já se viu? Que absurdo! Que falta de honestidade!"
"É um verdadeiro bandido! Um marginal! Um corrupto!"
"Ladrão! Uma desonra para a pátria!"
"Que vergonha! O que o mundo vai pensar de nós?"
A equipe brasileira se retira para os vestiários cabisbaixa, sem comemorar.
Apenas o zagueiro brasileiro que pediu o pênalti será recebido no país como herói da nação.
O país até se esquece que acabou de se sagrar hexacampeão do mundo, justo em cima da Argentina.
Um torcedor anônimo sai às ruas em uma capital do sul, gritando: "Ganhar roubado da Argentina é muito melhor!".
Quase é linchado. Se a polícia não tivesse chegado a tempo...
No Palácio do Planalto, o presidente brasileiro se prepara para pedir desculpas ao seu colega platino.
Sua voz até falha ao repassar mais uma vez o discurso.
"Como é que isso podia ter acontecido? É inadmissível!"
Justo num país que sempre foi tão rigoroso com a ética! Com o fair play...!
Ainda bem que não somos daquelas nações que sacrificam criminosos em praça pública.
Caso contrário... aquele maldito centroavante verde-e-amarelo não viveria para contar a história.



Durante sua turbulenta vida, John Fante amargou recusas de editores e padeceu da falta de reconhecimento pelo seu trabalho, não muito extenso mas que bastou para chamar a atenção de ícones como Charles Bukowski e influenciar a turma da geração beat, como Jack Kerouac. No entanto, teve de ganhar a vida muitas vezes como roteirista de Hollywood, outra ironia do destino.

