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terça-feira, 11 de agosto de 2009

Minha leitura mais recente

Dia desses, perambulando pelas imediações da escola do meu filho equanto aguardava sua saída das aulas, encontrei num jornaleiro um expositor com os excelentes livros de bolso da gaúcha L&PM. E dei de cara com esse título do John Fante, "1933 foi um ano ruim", que já havia me chamado a atenção outras vezes.
Desta vez, acabei comprando e lendo. Foi minha última leitura antes de voltar das férias.
E foi uma grata surpresa, como diria o Galvão Bueno. Embora ache meio estranho que locutor global se interesse pela obra do Fante. O livro conta, numa linguagem moderna e aparentemente descuidada (a história é contada pelo narrador, Dominic Molise, que tem 17 anos) a história de um rapaz pobre, descendente de imigrantes italianos, no cenário da crise da década de 1930 nos Estados Unidos.
John Fante nasceu em 1909 e foi um autor bastante considerado entre outros escritores conterrâneos. Seu livro mais famoso é "Pergunte ao pó", que pretendo ler em breve, assim que sobrar tempo. O estranho é que esta pequena obra-prima, "1933...", tenha sido recusada por várias editoras e publicada apenas postumamente.

Durante sua turbulenta vida, John Fante amargou recusas de editores e padeceu da falta de reconhecimento pelo seu trabalho, não muito extenso mas que bastou para chamar a atenção de ícones como Charles Bukowski e influenciar a turma da geração beat, como Jack Kerouac. No entanto, teve de ganhar a vida muitas vezes como roteirista de Hollywood, outra ironia do destino.
1933 é um livro sobre a crise econômica e suas consequências nas vidas das pessoas comuns, que não vêem como construir um futuro à margem do sistema. Como o protagonista, cuja única saída para superar a miséria seria tornar-se um jogador de beisebol. Mas como, se não tem um tostão no bolso e todas as portas estão fechadas para ele?
Um romance relativamente curto, com uma história quase banal, mas de uma densidade humana e uma força narrativa que há muito eu não via.
É marcante a maneira como é conduzido o episódio da paixão de Dominic por Dorothy (mesmo nome da garota do mundo de Oz. Uma ironia?), menina rica e irmã do seu melhor amigo.
Mais não adianta dizer. Melhor recomendar a leitura da história de Dominic Molise.
E assim, para quem acompanha meus posts há várias semanas, acabei saltando ironicamente do futebol para o beisebol. Mas volto ao nosso esporte preferido a qualquer momento...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Livraria Tavares, um triste adeus

Em todas as minhas férias, na passagem por Passos (MG), a livraria Tavares era uma parada obrigatória. Instalada num pequeno prédio ao lado da bela catedral da cidade, dividia seu espaço entre livros e confecções, o que já dá uma idéia da dificuldade que é manter uma livraria, puramente livraria, numa típica cidade brasileira.
As estantes não eram muitas mas, junto com duas gôndolas, exibiam exemplares atualizados e opções atraentes. Mesmo assim, parece não ter sido suficiente para que continuasse em atividade. Da penúltima vez em que lá estive, alguns cartazes na vitrine anunciavam a queima do estoque para encerramento das atividades.
Uma pena que uma cidade de pouco mais de cem mil habitantes situada num polo econômico importante do país, em um estado com tradição cultural e literária, não possua um público leitor que possa sustentar uma pequena livraria. É uma triste constatação.
A profissão de livreiro é cada vez mais uma atividade ingrata no país. Pelo menos, no que concerne ao ramo das pequenas lojas do interior.
Quase posso me lembrar de cada um dos títulos adquiridos ao longo das minhas idas e vindas entre uma viagem e outra. Dentre eles, "Canoas e Marolas" (João Gilberto Noll), "Sétimo Céu" (Alice Hoffman), "Terapia" (Ariel Dorfmann), "O Assassinato de Bebê Martê" (Elvira Vigna), "O Condenado" (Graham Greene), "Nas Arquibancadas" (John Grisham), "Como a Starbucks salvou minha vida" (Michael Gates Gill), dentre outros. Sobre os mais diversos temas, mas principalmente literatura.
Imagino que a maioria das pessoas que circulem pela praça da Matriz deva passar indiferente diante das portas hoje fechadas, e das vitrines definitivamente cobertas por portas corrediças. Não têm idéia do que perderam.
Uma triste realidade.
Mas, como diria alguém, uma livraria que fecha é uma luz que se extingue na cidade. Espero que pelo menos não deixem fechar também a biblioteca, que funciona em outra praça não muito longe dali.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Um pensamento, passo a passo


1. O nobre nobel José Saramago semana passada caiu de pau no Twitter e seu limite de 140 toques, dizendo que com ele nós, seres humanos, estamos a caminho do grunhido.
2. Isso remete a Nelson Rodrigues: os idiotas ainda irão dominar o mundo. Não por serem melhores, mas por estarem em maior número.
3. Outra máxima atribuída a ele (Nelson, não José) fala que só há uma coisa pior do que a mediocridade. É a mediocridade sem consciência da sua condição de... mediocridade.
4. Que dizer de mim, que continuo a utilizar o microblog?

quarta-feira, 22 de julho de 2009

So you are a star

Naquele momento, tudo era presente. O tempo presente. Um muro alto e velho no fundo do quintal. Havia acabado de chegar à cidade.
Há muitos anos não aportava por ali. No grande vazio em que havia se transformado sua vida, não importava mais para onde ia, onde estaria. Manaus, São Paulo, Cidade do México, Bogotá, Itajaí... e mais um punhado de cidades desertas. Só os sotaques mudavam.
Estava naquela altura da vida em que se perdem todas as pessoas importantes. Os pais, os irmãos com quem mantinha mais relações de afinidade... Não tinha filhos, não tinha amores, quase não tinha amigos.
Ela havia chegado pela manhã, para visitar uma dessas últimas amigas. Que morava distante, na cidade pequena e fria do interior.
Era inverno. Havia saído da casa para o quintal, para não presenciar o sofrimento da amiga, em seus últimos dias. Era demais. Havia passado por muita coisa na vida, mas ainda muitas vezes lhe faltavam forças para momentos como esse. Por sobre o muro, galhos pelados de árvores exibiam todo o seu desalento contra o céu sem cor.
No fundo daquele silêncio, crianças brincavam além dos muros. E um rádio estava ligado.
Ela foi andando. Aproximou-se do muro. Da varanda da casa vizinha. Uma dessas casas humildes, no arrebalde da periferia.
O rádio. Uma música. Que música era aquela?
Era familiar.
Há quantas décadas não a ouvia? O som do rádio era quase imperceptível a seus ouvidos fatigados, mas ela conseguiria acompanhar o ritmo, cantarolando. "Nobody knows you like I do...".
Isso. A bateria. A batida forte. Lembrava os bailes de trinta, quarenta anos atrás. Dançando a balada de rosto colado com seus amores do passado. "So you are a star... okay...".
Da janela da casa vieram alguns gritos nervosos. Talvez a amiga estivesse morrendo. E a música ainda não havia terminado além dos muros gastos do vizinho.
Ainda tenho as lembranças, ela pensou. Ainda tenho tudo aqui comigo. E voltou lentamente para o interior do quarto, onde a amiga agonizava.