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quarta-feira, 22 de julho de 2009

So you are a star

Naquele momento, tudo era presente. O tempo presente. Um muro alto e velho no fundo do quintal. Havia acabado de chegar à cidade.
Há muitos anos não aportava por ali. No grande vazio em que havia se transformado sua vida, não importava mais para onde ia, onde estaria. Manaus, São Paulo, Cidade do México, Bogotá, Itajaí... e mais um punhado de cidades desertas. Só os sotaques mudavam.
Estava naquela altura da vida em que se perdem todas as pessoas importantes. Os pais, os irmãos com quem mantinha mais relações de afinidade... Não tinha filhos, não tinha amores, quase não tinha amigos.
Ela havia chegado pela manhã, para visitar uma dessas últimas amigas. Que morava distante, na cidade pequena e fria do interior.
Era inverno. Havia saído da casa para o quintal, para não presenciar o sofrimento da amiga, em seus últimos dias. Era demais. Havia passado por muita coisa na vida, mas ainda muitas vezes lhe faltavam forças para momentos como esse. Por sobre o muro, galhos pelados de árvores exibiam todo o seu desalento contra o céu sem cor.
No fundo daquele silêncio, crianças brincavam além dos muros. E um rádio estava ligado.
Ela foi andando. Aproximou-se do muro. Da varanda da casa vizinha. Uma dessas casas humildes, no arrebalde da periferia.
O rádio. Uma música. Que música era aquela?
Era familiar.
Há quantas décadas não a ouvia? O som do rádio era quase imperceptível a seus ouvidos fatigados, mas ela conseguiria acompanhar o ritmo, cantarolando. "Nobody knows you like I do...".
Isso. A bateria. A batida forte. Lembrava os bailes de trinta, quarenta anos atrás. Dançando a balada de rosto colado com seus amores do passado. "So you are a star... okay...".
Da janela da casa vieram alguns gritos nervosos. Talvez a amiga estivesse morrendo. E a música ainda não havia terminado além dos muros gastos do vizinho.
Ainda tenho as lembranças, ela pensou. Ainda tenho tudo aqui comigo. E voltou lentamente para o interior do quarto, onde a amiga agonizava.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Reforma ortográfica

Eu, que trabalho com textos, acho horrível essa reforma. Não quero ser reacionário, mas ela para mim já nasceu incompleta. Nem avançamos decididamente, no sentido de facilitar o aprendizado do nosso idioma foneticamente pelo estrangeiro (como nos idiomas espanhol, italiano e alemão, e nem mantivemos a tradição e a importante diferenciação entre algumas palavras.